Escopo 3 e Agronegócio: O Papel das Políticas Públicas no Agronegócio Brasileiro

 


O Escopo 3 desafia o agronegócio brasileiro. Entenda a importância da gestão eficiente de políticas públicas, contribui para cadeias sustentáveis e quais são seus limites.


A intensificação da agenda climática global vem reposicionando o agronegócio brasileiro no centro do debate sobre sustentabilidade, comércio internacional e políticas públicas. Nesse contexto, o Escopo 3 — que abrange as emissões indiretas ao longo das cadeias de valor — tornou-se um dos maiores desafios para empresas exportadoras e para o próprio Estado brasileiro, uma vez que envolve múltiplos atores, territórios e níveis de governança.

Segundo o GHG Protocol, o Escopo 3 compreende as emissões de gases de efeito estufa que ocorrem fora do controle operacional direto das empresas, mas que estão associadas às suas decisões produtivas e comerciais. No setor agroindustrial, essas emissões concentram-se principalmente nas etapas iniciais da cadeia, como produção agropecuária, uso do solo, manejo de insumos, transporte e logística, o que explica sua elevada participação no total de emissões do setor.

Diante dessa complexidade, políticas públicas estruturantes assumem papel central na organização das cadeias produtivas e na viabilização da mitigação de emissões em larga escala. É nesse ponto que se insere o Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), criado como instrumento da política climática brasileira para promover práticas agropecuárias sustentáveis, reduzir emissões e aumentar a resiliência do setor frente às mudanças climáticas.

Do ponto de vista positivo, o Plano ABC representa um avanço relevante ao oferecer diretrizes técnicas, instrumentos de financiamento e incentivos à adoção de tecnologias de baixo carbono, como recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, sistemas agroflorestais e manejo sustentável do solo. Essas práticas têm impacto direto sobre as emissões associadas ao Escopo 3 das cadeias agroindustriais, ao atuar justamente nos elos mais intensivos em carbono.

Além disso, o Plano ABC contribui para alinhar o agronegócio brasileiro às exigências internacionais de sustentabilidade, fortalecendo a posição do país em mercados de exportação cada vez mais regulados. Ao incentivar práticas mensuráveis e reconhecidas internacionalmente, a política pública cria uma base comum para rastreabilidade, monitoramento e reporte de emissões ao longo da cadeia de valor.

No entanto, o Plano ABC também enfrenta críticas e limitações quando analisado sob a ótica do Escopo 3. Um dos principais desafios é a heterogeneidade da adoção das práticas entre regiões, cadeias produtivas e perfis de produtores. Pequenos e médios produtores, que compõem grande parte da base da cadeia, nem sempre têm acesso efetivo a crédito, assistência técnica ou capacitação suficiente para implementar as tecnologias previstas.

Outra crítica recorrente refere-se à dificuldade de mensuração, monitoramento e integração de dados ao longo da cadeia produtiva. Embora o Plano ABC estimule práticas sustentáveis, ele ainda apresenta limitações na articulação com sistemas robustos de rastreabilidade e reporte compatíveis com as exigências de mercados internacionais e padrões corporativos de ESG.

Há também desafios de governança e coordenação institucional. O enfrentamento do Escopo 3 exige integração entre políticas agrícolas, ambientais, comerciais e industriais, bem como maior alinhamento entre governos, empresas e produtores. Sem essa coordenação, os ganhos promovidos pela política pública tendem a ser fragmentados e insuficientes para responder plenamente às pressões regulatórias externas.

Em síntese, a capacidade de implementar políticas públicas de impacto, desempenha papel fundamental na transição do agronegócio brasileiro para modelos de produção mais sustentáveis e de baixo carbono. Contudo, para enfrentar de forma efetiva o desafio do Escopo 3 nas cadeias de valor, será necessário aprofundar a implementação, ampliar o acesso, fortalecer a governança e integrar a política pública às exigências internacionais de rastreabilidade e transparência. O futuro da competitividade do agronegócio brasileiro dependerá da capacidade de todos os atores envolvidos nas cadeias produtivass do agronegócio de transformar o Plano ABC em um instrumento ainda mais eficaz de articulação entre sustentabilidade, comércio exterior e desenvolvimento econômico.



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